Quantificação de Danos

1) Propósito e escopo

A quantificação trata da mensuração de grandezas de interesse probatório — p.ex., danos materiais, lucros cessantes, custos de remediação, tempo de indisponibilidade, perdas de eficiência — com base em dados rastreáveis, modelos explícitos e incerteza declarada. Abrange engenharia, finanças/contabilidade, tecnologia da informação, propriedade intelectual, meio ambiente e saúde ocupacional.

2) Princípios orientadores

  1. Rastreabilidade: cada valor numérico deve apontar para dados de origem, ETL e parâmetros (com versões e/ou hashes).
  2. Reprodutibilidade: planilhas/scripts e bases permitem refazer cálculos e gráficos.
  3. Transparência de hipóteses: listar premissas, faixas e fontes; separar mensuração de inferência/modelagem.
  4. Incerteza e sensibilidade: declarar quando aplicável e mostrar efeito de premissas (cenários, tornado, Monte Carlo).
  5. Proporcionalidade: conclusões calibradas à força da evidência e aos limites do método e dos dados.

3) Dados e reconciliação

3.1 Proveniência e integridade

  • Identificar fonte (ERP, extratos, SCADA, logs, sensores, laudos, notas fiscais), data/hora de extração, responsável e hash (quando aplicável).
  • Registrar ETL: filtros, correções, conversões, agregações.

3.2 Reconciliação contábil-operacional

  • Amarrar registros a lançamentos/documentos (IDs, chaves) e a medições físicas quando houver (ex.: quilowatt-hora, horas-máquina).
  • Mapear lacunas e inconsistências; abrir não conformidades e estimativas conservadoras quando inevitável (declarar métodos).

4) Modelos e métricas

4.1 Tipos de modelo

  • Determinísticos: soma ponderada, custo unitário × quantidade, curvas de degradação, índices de eficiência.
  • Estatísticos: regressões (com diagnóstico), séries temporais, modelos de sobrevivência.
  • Econômico-financeiros: fluxo de caixa, taxa de desconto, depreciação, custo de oportunidade.
  • Operacionais/TI: métricas de disponibilidade (MTBF/MTTR, SLA), filas/atrasos.

4.2 Boas práticas

  • Documentar fórmulas e unidades; justificar coeficientes; evitar extrapolações não suportadas.
  • Distinguir input medido (com incerteza) de parâmetro assumido (com fonte/faixa).
  • Versionar planilhas/scripts e bibliotecas; registrar hash dos arquivos.

5) Incerteza e faixas de validade

  • Identificar fontes (instrumentos, amostragem, modelo, dados faltantes, arredondamentos).
  • Combinar componentes (Tipo A/Tipo B) para obter u_c e U = k·u_c com k e nível de confiança.
  • Declarar faixas de validade do resultado (ex.: período, temperatura, regime operacional, granularidade temporal).

6) Análise de sensibilidade

6.1 Determinística

  • Cenários (base, conservador, otimista) e gráfico tornado para priorizar premissas mais influentes.
  • Apresentar impacto absoluto e percentual nas saídas.

6.2 Monte Carlo (quando cabível)

  • Atribuir distribuições aos inputs críticos; N iterações.
  • Reportar mediana, média, quantis e probabilidades de exceder limiares.
  • Descrever fontes das distribuições (dados históricos, literatura, julgamento técnico justificado).

7) Validação/Verificação do modelo

  • Backtesting quando houver histórico; erro fora de faixa exige revisão de premissas.
  • Cross-check com método alternativo (estimativas por outra abordagem).
  • Documentar limitações conhecidas e condições de não aplicabilidade.

8) Governança de cálculo (ETL e versões)

  • Manter dicionário de campos (nome, tipo, unidade, origem, semântica).
  • Tabela de versões (scripts/planilhas, bibliotecas, firmware), com hash e changelog.
  • Trilha de auditoria: quem alterou o quê/quando/por quê; controles de acesso; backups testados.

9) Comunicação no laudo

  1. Objetivo e escopo (quesitos e fronteiras).
  2. Dados e reconciliação (fontes, ETL, lacunas).
  3. Modelo (fórmulas, parâmetros, hipóteses, diagnóstico).
  4. Resultados (tabelas/gráficos com unidades).
  5. Incerteza e sensibilidade (U, k; cenários/tornado/Monte Carlo).
  6. Discussão crítica (robustez, limites, efeitos de premissas).
  7. Respostas por quesito (remissões diretas).
  8. Anexos (dados brutos/derivados, scripts/planilhas com hash, dicionário, tabela de versões).

10) Checklists operacionais

Planejamento

  • Quesitos traduzidos em métricas mensuráveis.
  • Fontes de dados e reconciliação definidas.
  • Modelo e parâmetros documentados; critérios de aceitação.

Execução

  • ETL registrado; versões e hashes salvos.
  • Cálculo de U (k, confiança) quando aplicável.
  • Sensibilidade: cenários/tornado; Monte Carlo se necessário.

Relatório

  • Tabelas/figuras com unidades e notas metodológicas.
  • Remissões para dados, scripts e versões.
  • Declaração de limitações e faixas de validade.

11) Indicadores de qualidade

  • % análises com reconciliação completa de dados.
  • % relatórios com U (k, confiança) e sensibilidade declaradas.
  • % scripts/planilhas com hash e tabela de versões.
  • Tempo médio para réplica independente do cálculo.
  • Taxa de não conformidades em dados/modelos e eficácia das correções.

12) Materiais de apoio

  • Template de modelo de quantificação (planilha com abas: dados, ETL, cálculo, sensibilidade).
  • Exemplo de gráfico tornado e guia rápido de Monte Carlo.
  • Dicionário de campos e checklist de reconciliação (documento→registro→cálculo).
  • Tabela de versões (scripts/planilhas/bibliotecas) e changelog.
  • Roteiro de backtesting e de cross-check metodológico.

13) Relações com outros eixos

  • Rastreabilidade — dados/ETL/versões que dão lastro aos números.
  • Validação — evidências de desempenho de métodos e modelos.
  • CoC — integridade dos dados de base (incluindo digitais).
  • Comunicação — estrutura e proporcionalidade no relato.
  • Evidência Digital — quando a base vem de artefatos digitais (hashes, timelines).

Aviso final de escopo
Esta página descreve critérios técnico-metodológicos para quantificação em contextos periciais. Não interpreta normas para casos concretos e não constitui consultoria jurídica.

Declaração editorial
Conteúdo técnico-científico no âmbito das ciências forenses e das normas técnicas; não constitui consultoria jurídica, parecer legal ou recomendação profissional.