1) Propósito e escopo
Esta página estabelece critérios técnico-forenses para identificação, coleta, preservação, análise e relato de artefatos digitais, garantindo integridade, rastreabilidade e reprodutibilidade. Abrange endpoints, servidores, redes, nuvem/SaaS, dispositivos móveis, IoT e repositórios de logs, com foco em planejamento metodológico, cadeia de custódia digital, validação de ferramentas e comunicação clara das limitações.
2) Princípios orientadores
- Minimização de alterações: priorizar procedimentos que evitem modificar o estado da evidência.
- Integridade verificável: uso sistemático de hashes (preferir SHA-256; MD5 apenas como complementar/compatibilidade).
- Rastreabilidade completa: registrar quem/como/quando/com o quê (ferramentas e versões).
- Reprodutibilidade: preservar dados brutos, parâmetros e ambientes para réplica independente.
- Transparência: declarar limitações (retencões, criptografia, anti-forense) e incertezas (ex.: granularidade temporal).
- Segregação de funções: quem coleta não avalia isoladamente sem revisão técnica.
3) Escopo e definições operacionais
- Artefato digital: qualquer dado com metadados relevantes (arquivos, imagens forenses, logs, e-mails, bases, snapshots, dumps de memória).
- Aquisição física (bit a bit): cópia setor-a-setor de mídia; inclui espaço não alocado.
- Aquisição lógica: extração seletiva (partição, pasta, objeto).
- Exportação autenticada: obtenção por API/portal com trilha de auditoria (nuvem/SaaS).
- Hash: assinatura criptográfica para verificar integridade (registrar algoritmo, data/hora, ferramenta/versão).
- Timeline: reconstrução temporal com NTP/offset e fuso horário declarados.
4) Planejamento técnico (matriz quesito → fonte → método)
- Quesitos → quais hipóteses precisam de evidência?
- Fontes: hosts, contas, buckets, aplicações, sensores, appliances, EDR/SIEM/MDM.
- Métodos: imagem física/lógica, export API, coleta ao vivo (RAM/processos), PCAP/NetFlow, dumps de logs.
- Critérios de qualidade: integridade (hash), versões de ferramentas, granularidade temporal, requisitos de custódia.
- Entregáveis: imagens, listas de arquivos, timelines, relatórios de parsing, dicionário de campos, scripts/planilhas.
5) Identificação e mapeamento de fontes
- Endpoints/servidores/VMs: discos, volumes, perfis, artefatos de SO/aplicativos.
- Nuvem/SaaS: objetos/buckets, audit logs, versões/snapshots, trilhas de acesso, regiões e políticas de retenção.
- E-mail/colaboração: caixas, threads, anexos, permissões, histórico de edição.
- Redes: PCAP, NetFlow/IPFIX, DNS, proxy, firewall, IDS/IPS.
- Móveis/IoT: storage, backups, registros de apps/sensores.
Documente IDs técnicos (hostname, serial, tenant, região) e políticas de retenção que afetem o escopo temporal.
6) Coleta preservadora
Prioridade: aquisições que maximizem integridade e contexto.
- Imagem física com write blocker; registrar modo, ferramenta e parâmetros.
- Imagem lógica quando física for inviável; declarar limitações (espaço não alocado não incluído).
- Exportações autenticadas (nuvem/SaaS) com escopo, token/permits e audit logs anexos.
- Coleta ao vivo (memória, processos, conexões): justificar necessidade; registrar imediatamente timestamp/offset, host e hash dos dumps.
Passos mínimos
- estabilizar (quando possível) → 2) registrar contexto (data/hora/fuso) → 3) executar coleta com ferramenta e versão documentadas → 4) calcular hash do alvo/imagem → 5) gerar log de coleta assinado (ou com hash).
7) Cadeia de custódia digital
- Formulário: ID único, origem, responsável, data/hora, meio, condição, hashes, lacres selados (quando mídia física).
- Armazenamento: repositório append-only ou com auditoria/versionamento; criptografia em repouso; controle de chaves (KMS) e perfis de acesso.
- Transferência: mídia cifrada e lacrada (físico) ou canal autenticado com assinatura e verificação de integridade no destino (lógico).
- Verificação periódica: rehash (detecção de bit rot), testes de restauração/backups.
8) Validação e versões de ferramentas
- Validação: usar test sets/golden images e cross-check por ferramenta alternativa quando crítico.
- Gestão de versões: registrar versão/build, módulos/plugins, hash do executável; documentar impacto de atualizações.
- Cobertura de parsing: indicar campos/artefatos suportados, taxas de falso-positivo/negativo quando aplicável.
9) Sincronização temporal e metadados
- NTP nos ambientes de coleta/análise; registrar offset local e fuso.
- Metadados: preservar MACB, ACLs, atributos estendidos; evitar operações que reescrevam timestamps.
- Timelines: indicar precisão e lacunas; consolidar eventos de múltiplas fontes (host, app, rede).
10) Gestão e integridade de dados (ALCOA+)
- Atribuível, Legível, Contemporâneo, Original, Acurado + Completo, Consistente, Duradouro, Disponível.
- Trilha de auditoria: quem alterou o quê/quando/por quê; logs imutáveis; controle de versões de scripts/planilhas.
- Backups: redundância, testes de restauração, air gap/snapshots contra ransomware.
- Formatos: preferir abertos; se proprietários, incluir documentação do leitor/verificador.
11) Documentação de limitações e incertezas
- Lacunas: retenção curta, criptografia ponta-a-ponta, BYOD sem MDM, políticas de privacidade que restringem export.
- Impacto: explicar como limita a hipótese/quesito (ex.: janela temporal irrecuperável).
- Incerteza temporal: granularidade/offsets; declarar faixas e efeito na ordem relativa de eventos.
12) ETL e reprodutibilidade
- Registrar passo a passo de extração, transformação e carga: filtros, normalizações, deduplicações, mapeamentos e parâmetros.
- Anexar scripts/planilhas com hash, versões de bibliotecas e dicionário de campos (nome, tipo, origem, semântica).
13) Comunicação no laudo (estrutura sugerida)
- Objetivo e escopo (quesitos, hipóteses, janelas temporais).
- Ambiente e fontes (inventário de hosts/contas/regiões; políticas de retenção).
- Materiais e métodos (coletas, ferramentas/versões, validação, parâmetros).
- Cadeia de custódia (formulários, lacres, hashes, trilhas de auditoria).
- Resultados (artefatos, correlações, timelines, prints controlados).
- Incerteza e limitações (temporal, cobertura de parsing, lacunas).
- Respostas por quesito (remissões diretas a dados/métodos/anexos).
- Anexos (dados brutos/derivados, logs, scripts, dicionário, tabela de versões).
14) Checklists operacionais
Antes da coleta
- Autorização interna; plano de coleta e matriz quesito→fonte→método.
- Ferramentas validadas; mídia de destino preparada (hash inicial).
- Ambiente com NTP; formulários de custódia e etiquetas prontos.
Durante a coleta
- Registrar data/hora/fuso, host/conta, operador, ferramenta/versão, parâmetros.
- Calcular hash do alvo (quando aplicável) e da imagem/export resultante.
- Gerar log detalhado (comandos, erros, exceções).
Após a coleta
- Rehash de verificação; armazenamento cifrado; atualização da custódia.
- Sumário técnico (inventário de itens, tamanhos, hashes).
- Abertura de QA/QC para revisão técnica independente.
Nuvem/SaaS (especial)
- Export por API com escopo mínimo necessário; registrar tokens/escopos/expiração.
- Capturar audit logs; atestar região e carimbo temporal.
- Evidenciar versões do provedor (schema/fields).
Móveis/IoT (especial)
- Escolher método (físico/lógico) compatível com o estado do dispositivo.
- Preservar backups em nuvem quando congruentes aos quesitos.
- Documentar limitações (cripto, bootloader, root/jailbreak).
15) Exemplos curtos
Imagem de disco
Aquisição bit a bit com write blocker; ferramenta; SHA-256 do alvo e da imagem; log de coleta; mídia cifrada e lacrada; rehash trimestral.
Export de e-mail corporativo (SaaS)
Export API com escopo limitado; audit logs anexos; MBOX com SHA-256; dicionário de campos (From/To/Date/Message-ID) e timezone. Limitação: retenção do provedor em 90 dias (janela anterior irrecuperável).
Timeline híbrida host-rede
Logs de SO (Security/Event), EDR, DNS e proxy; todos com offset NTP documentado; incerteza temporal ±Δ; ordem relativa de eventos críticos preservada.
16) Indicadores de qualidade
- % coletas com hash verificado (alvo e imagem/export).
- % relatórios com tabela de versões (ferramentas/scripts) e dicionário de campos.
- % casos com audit logs anexados (nuvem/SaaS).
- Tempo médio entre identificação e aquisição (redução de volatilidade).
- Taxa de não conformidades (hash divergente, lacre violado) e eficácia de correções.
17) Materiais de apoio
- Formulário de custódia digital (IDs, hashes, lacres, responsáveis).
- Matriz de coleta (quesito → fonte → método → parâmetros → hash).
- Tabela de versões (ferramentas/firmware/plugins; hash).
- Modelo de timeline (com fuso/offset/precisão).
- Roteiro de validação de parser (test sets, cross-check, cobertura de campos).
- Dicionário de campos (nome, tipo, origem, semântica, limitações).
18) Relações com outros eixos
- CoC: integra formulários, lacres, hashes, transferências e auditorias.
- Validação: estabelece desempenho/limites de ferramentas de coleta/parsing.
- Rastreabilidade: conecta proveniência, versões e ETL aos resultados.
- Comunicação: orienta relato de timelines, limitações e anexos reprodutíveis.
- Quantificação: quando houver métricas (ex.: duração/dano), vincula dados digitais a modelos com sensibilidade.
Aviso final de escopo
Esta página descreve critérios técnico-metodológicos para tratar evidência digital com integridade e reprodutibilidade. Não interpreta normas para casos concretos e não constitui consultoria jurídica.
Declaração editorial
Conteúdo técnico-científico no âmbito das ciências forenses e das normas técnicas; não constitui consultoria jurídica, parecer legal ou recomendação profissional.